sábado, março 23

A ESCOLA QUE ESPIRRAVA CRIANÇAS


A ESCOLA QUE ESPIRRAVA CRIANÇAS

As crianças não podiam fazer nada: não podiam
perguntar, não podiam brincar, não podiam mostrar-se
curiosas. A escola não deixava. Qualquer coisinha 
e ela espirrava as crianças.

O mais esquisito era o final do ano:
ela falava que as crianças não
tinham aprendido nada.
Escrevia num papel: reprovado!, 
com tinta vermelha, que era para
todo mundo ver que ela,
a escola, é que sabia tudo!

A escola não era má; ela achava que era bom ser assim e, se
era bom para ela, deveria ser bom para as crianças também.

Mas, engraçado! As crianças 
eram tão sabidas! Sabiam
contar estórias, empinar tão
bem papagaios, sabiam
brincadeiras divertidas,
cantavam lindas canções.
Além disso, eram craques com 
a bola! Como é que pode a 
escola achar que elas não  
sabiam nada!

Todo mundo ficava triste e pensava: "será que essa escola não
enxerga que cada criança é diferente, tem uma família diferente,
aprende coisas diferentes, vive de formas diferentes?

Um dia a escola começou a desconfiar que 
as pessoas estavam ficando tristes
e a vida lá fora, tão difícil!

E aquelas crianças que ela espirrava
 estavam ali, crescendo na rua,
aprendendo outras coisas, algumas
legais, outras nem tão legais assim.

E as crianças olhavam a escola por cima do muro - elas
queriam estar lá dentro, conviver com os colegas de sua
idade, aprender coisas interessantes. Afinal, para que
serve a escola? Não é para ensinar, para que a vida fique
melhor e viver seja uma experiência bonita?

Felizmente, não só as crianças olhavam por cima do muro.

Muitos professores e professoras espichavam os olhos e
olhavam lá fora e pensavam: "será que não tem jeito...?

Com tantos olhos à sua volta, a escola começou
a ficar incomodada. Cada vez mais crianças
olhavam e professores olhava por cima do 
muro: as crianças, lá para dentro, os professores, 
para fora. Aquele tantão de olhos de crianças
parecia sempre estar falando para a escola:
"nós também queremos estudar!..."

Os olhos olhavam tanto a escola, que, um dia, o portão se abriu

um pouquinho. As crianças olharam umas para as outras e
entraram. A partir desse dia, a escola começou a enxergá-las,
como se fosse a primeira vez.

Mas, mesmo assim, ela continuava a espirrar crianças...

O tempo foi passando. Um dia, a escola, depois de pensar, de
olhar-se no espelho, olhar o muro e ver que ainda tinha muitos
 olhos lá em cima, ela resolveu abrir os portões de vez:

Venham crianças! O lugar de vocês é aqui!
Tragam seus pais, vamos discutir, juntos, uma forma mais
interessante, mais democrática de ensinar e aprender! Olhando 
no fundo dos seus olhos, ouvindo os professores, eu percebi
que vocês sabem coisas, e muitas coisas mesmo!

Percebi, também, que cada um sabe coisas diferentes...
E aprendi, aprendi com vocês uma grande lição: a escola é um
direito de vocês. De todos! Para isto, muita coisa tem que mudar.


Daqui para frente, quero ser uma Escola Plural.
vocês sabem o que é isto? Uma escola que nunca mais possa
espirrar crianças. Eu entendi que ninguém pára de
aprender só porque chegou no final do ano.

Entendi, também, que cada um aprende de maneira
e num tempo maior ou menor que o outro. Mas o importante é
que todos são capazes de aprender.

Desse dia em diante a escola mudou. Pais, alunos
e professores estão sempre discutindo uma maneira de fazer a
escola ficar cada dia melhor. Descobriram ( e continuam 
descobrindo) que, desse jeito, estudar é melhor, mais gostoso...
E aprender pode transformar numa fantástica aventura ....

Fátima Moreira Pfeilsticker

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